
Inês Carneiro, arquiteta da Ventura + Partners, vence Prémio Fernando Távora 2026
Oct 13, 26A arquiteta vai percorrer o Deserto do Atacama, no Chile, para estudar os observatórios astronómicos como pontos de encontro entre a arquitetura e a física.
Inês Carneiro, arquiteta na Ventura + Partners, venceu a 22.ª edição do Prémio Fernando Távora, atribuído pela Ordem dos Arquitetos – Secção Regional do Norte. Escolhida por unanimidade entre 28 candidaturas, a proposta “Arquiteturas do Cosmos: Interface com a Física” recebe uma bolsa de 6 000 euros para uma viagem de investigação. O anúncio decorreu a 12 de outubro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos.
A proposta tem como objeto os observatórios astronómicos do Deserto do Atacama, alguns dos mais avançados do mundo. A viagem inclui o ALMA (Atacama Large Millimeter Array), o complexo solar Cerro Dominador, o Very Large Telescope do ESO no Paranal, o observatório ESO de La Silla e a reserva de céus escuros do Valle del Elqui. O objetivo é analisar como estas estruturas conciliam exigência tecnológica e rigor construtivo com uma localização singular. O próprio deserto é parte desta arquitetura, pela sua vastidão, pelo ar rarefeito e pela escuridão, que Inês Carneiro descreveu como “um recurso cada vez mais escasso no planeta”.
O júri destacou a dimensão humanista e filosófica da proposta, que olha para os observatórios não só como instrumentos científicos, mas também como expressão do desejo humano de compreender a nossa origem e o nosso lugar no universo.
Do Alentejo ao Atacama
O interesse da arquiteta Inês Carneiro pelo tema nasceu em Portugal: “O meu interesse por este tema começou numa viagem que fiz ao Alentejo, aos observatórios astronómicos locais. Nesse mesmo ano, comecei a escrever a minha dissertação de mestrado sobre o tema”, referiu.
O que a fascina nestes edifícios é a dupla natureza da sua função, ao mesmo tempo técnica e científica, mas também filosófica e humanista. Desde construções rudimentares como Stonehenge, a humanidade sempre ergueu estruturas para observar o céu. “Apesar de os observatórios astronómicos de hoje serem altamente evoluídos construtivamente e tecnologicamente, representando os maiores futurismos da arquitetura e engenharia atual, continuam a fazer a mesma pergunta do homem primitivo: de onde viemos?” questiona Inês Carneiro.
Daí a escolha do Atacama. “Os observatórios do Atacama interessam-me particularmente porque são dos mais avançados do mundo, albergando os maiores telescópios com ótica de ponta, tecnologia e domótica”, explicou a arquiteta da Ventura + Partners.
Arquitetura de rigor: dos hospitais aos palcos e aos observatórios
A escolha do tema prolonga o percurso profissional da arquiteta. Na Ventura + Partners, Inês Carneiro trabalha em projetos de grande escala e elevada exigência técnica, nomeadamente na área hospitalar. Paralelamente, dedica-se à produção de festivais de música, onde acompanha a implantação de grandes estruturas como palcos.
“Tenho algum fascínio por edifícios com uma função muito vincada e rigorosa, aquilo que associo a uma espécie de tecno-arquitetura. São edifícios em que a forma está muito presa à sua função e, por isso, para projetá-los, é preciso conhecimento técnico da área em questão”, sublinhou Inês Carneiro. “Quer falemos de hospitais, de palcos ou de observatórios, tratam-se de arquiteturas de elevado rigor funcional, onde a técnica, a tecnologia e a forma se fundem”, acrescentou.
Da viagem, espera trazer conhecimento direto do terreno. “Pretendo compreender, na prática, como se processam as interseções entre arquitetura, tecnologia, engenharia e física na conceção destes edifícios raros. A minha expectativa é trazer algumas lições de como a arquitetura deve responder a exigências técnicas extremas”, afirmou a arquiteta.
Sobre o Prémio Fernando Távora
Criado em homenagem ao arquiteto Fernando Távora, o prémio distingue anualmente uma proposta de viagem de investigação em arquitetura. É organizado pela Ordem dos Arquitetos – Secção Regional do Norte, em parceria com a Câmara Municipal de Matosinhos, a Casa da Arquitetura e a Fundação Marques da Silva, com patrocínio da Ageas Seguros. O júri desta edição foi presidido pelo chef Rui Paula e contou com os arquitetos Andrea Soutinho, Pedro Ramalho, António Cerejeira Fontes e Pedro Távora de Magalhães Bastos.
