ter, 08 junho 2021

Manuel Ventura no Designer in Profile da design et al

Por ocasião da nomeação do Essenza como finalista na edição de 2021 dos International Design & Architecture Awards, a revista Design et al entrevistou Manuel Ventura, fundador e CEO da Ventura + Partners. O resultado é uma conversa informal acerca do seu histórico profissional, alguns dos projetos V+ e o futuro do design.

Fale-nos um pouco do seu histórico profissional.

Após concluir a minha formação, na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde acabei por descobrir e a ser obviamente influenciado pela arquitetura de Álvaro Siza e todos os modernos internacionais e portugueses, comecei a minha carreira a trabalhar com o arquitecto Manuel Fernandes de Sá e o arquitecto Francisco Barata Fernandes, meus professores e nomes incontornáveis da escola do Porto.

Em 1994 criei a Ventura + Partners, que desenvolve projectos de arquitectura, urbanismo, design técnico e consultadoria. Nos últimos 25 anos, temos vindo a desenvolver projetos de diferentes escalas e nos mais diversos segmentos, como a arquitetura comercial, corporativa, residencial, hoteleira, industrial, de saúde e educação, de transportes e infraestruturas e, ainda, na área do design urbano. Combinando uma experiência sólida com inovação e investigação constante, estamos comprometidos com a procura de soluções sustentáveis e integradas, através do planeamento estratégico. A nossa missão é melhorar a vida das pessoas através da arquitetura, permitindo interações significativas entre elas e o espaço que as rodeia.

Arquiteto Ventura

Como descreve o seu estilo pessoal de design?

O resultado é sempre único, mas o processo privilegia o desenvolvimento de formas e geometrias que necessitam de ser vividas, favorecendo técnicas de construção tradicional ou investigando processos construtivos inovadores, mas sempre procurando o equilíbrio com a natureza do lugar.

Cada projeto é o resultado de uma resposta técnica e artística dada a um determinado problema. O design é o resultado de muitas experiências acumuladas, um complexo tornado possível pelo consolidar do conhecimento, que é adquirido em antigas e recentes vivências, moldadas em lugares próximos e outros distantes, que marcam a memória. É a alquimia de ligar tudo isso numa resposta criativa a um problema.


De onde provém a sua inspiração de design?

Do exercício contínuo de geometrizar o que a atenta observação analisa do que vê.
Sobretudo a realidade experimentada e vivida e não imagens dessas realidades.


Em que direção acha que o design está a caminhar, num sentido geral?

Penso que se dirige cada vez mais orientado em demasia por importantes questões sociais e políticas, mas que não são as essenciais da arte. É cíclico na história, portanto é uma tendência que também passará. Por outro lado, assiste-se a uma miscigenação galopante de toda a produção artística, a um nível sem precedentes, de um modo demasiado superficial porque maioritariamente o conhecimento advém virtualmente e não é experimentado fisicamente.

Por outro lado, existe uma possibilidade imensa de conhecimento disponível para todos “online” nunca anteriormente imaginável, o que é verdadeiramente entusiasmante.


Que cinco temas poderão ser considerados quando se pensa no design dos 2020s?

Investigação; Interdisciplinaridade; Trabalho em equipa; Sustentabilidade; Beleza.


Se pudesse dar um conselho relacionado como design, qual seria?

Estudar bem o problema a resolver. Entender o local e o contexto, desenvolver a solução como resposta racional a cada segmento do programa com a consciência crítica do seu background de conhecimento e a sensibilidade artística que dele deve fazer parte.


Qual a importância que atribui aos The International Design & Architecture Awards?

Uma oportunidade de partilha e simultaneamente a possibilidade do trabalho produzido ser avaliado por outros pares em contextos de vida diferentes. Essas avaliações permitem que todos os envolvidos nos processos de criação e desenvolvimento dos projetos melhorem a sua perceção crítica do trabalho que produzem e ajuda a assunção de uma consciência mais isenta e independente sobre o mesmo. Por outro lado, cria uma motivação suplementar para a dedicação apaixonada que esta atividade exige, e torna-nos mais resistentes para continuar a superar dificuldades e lutar pelos princípios que informam o nosso trabalho.


Em que projeto tem estado a trabalhar?

Normalmente trabalho sempre em vários projetos em simultâneo. Com o passar dos anos desenvolve-se a capacidade de tornar possível gerir mentalmente várias realidades em simultâneo. O que para mim é benéfico no meu processo criativo, pois cria a possibilidade de aproximação e distanciamento relativamente à obra durante o processo criativo. E, obviamente, o trabalho em equipa, num gabinete organizado, é fundamental para criar essas condições.

Vou apenas citar um entre os vários que trabalho atualmente.

Uma antiga quinta com uma grande casa antiga a preservar, ao lado de um antigo estádio de futebol, no meio de uma zona de edifícios de habitação coletiva e unifamiliar, numa área de 9he. É este o contexto para um dos projetos mais interessantes em que hoje estou envolvido: criar uma nova forma urbana para cerca de 50.000m2 de habitação e comércio local de apoio, a custos atrativos na cidade de Matosinhos, ao norte do Porto, Portugal.


Qual é o seu projeto favorito?

Essa é uma pergunta de difícil resposta, pois todos os projetos são favoritos durante o processo criativo. Agrada-me sobretudo projetos que consistam num grande desafio e que sejam bem construídos. Não me interessam projetos que não sejam construídos. O projeto que submetemos aos International Design & Architecture Awards – o Essenza – teve um processo criativo muito interessante. Teve toda a emoção de um enredo digno de romance, pois esteve prestes a ser construído em 2010 e acabou por ficar parado, mudar de mãos e ser construído, após novas alterações, cerca de 10 anos depois de ter sido projetado pela primeira vez. E é um projeto que foi bem construído e teve um processo de desenvolvimento complexo, com questões técnicas de difícil resolução. Portanto, todos os ingredientes para o que me parece ser um bom projeto e um dos meus favoritos.


E qual o mais desafiante?

O Hospital da CUF, no Porto. Porque foi o meu primeiro grande projeto construído e a complexidade de um projeto de saúde é, em si, mesmo difícil e muito desafiante. Este teve, ainda, a complexidade suplementar de existir num terreno exíguo, e com prazos de execução de projeto e construção muito apertados.


Quais os objetivos para o próximo ano?

Continuar a desenvolver os projetos em que estou envolvido de modo a que sejam bem construídos.


Fale-nos um pouco mais de si e da sua inspiração quotidiana.

Observar, sentir, imaginar, qualquer que seja o contexto.


Qual o seu bem mais precioso?

Os meus colaboradores diriam “a minha energia”. Aceito mas complemento: a vontade de envolver todos os necessários para que os projetos sejam bem concretizados. E nos dias de hoje precisamos de equipas que se desdobrem no estudo de várias matérias que informam cada projeto, assim como aqueles que se dedicam a explorar.


Qual o seu destino de férias favorito?

Eu viajo muito, mas normalmente em trabalho. Há muitos destinos fantásticos e torna-se difícil escolher um favorito. Pode ser uma viagem por Portugal e Espanha, usando estradas secundárias, sem destino, parar quando e onde apetecer…


Quais os seus hotéis, restaurantes e bares preferidos?

Hóteis: Standard Hotel, em Nova Iorque; Unique, em São Paulo; The Ritz, em Lisboa.

Restaurantes: Onde como diariamente quando estou no Porto. O Rogério do Redondo ou a Cozinha do Manel, restaurantes de comida tradicional do norte de Portugal, com produtos de grande qualidade. Mas poderia também citar centenas de excelentes restaurantes que adoro, em qualquer geografia, porque na verdade comer, em boa companhia, é para mim um dos enormes prazeres da vida.

Bar: Bagatelle, em Nova Iorque.


Um livro, um filme e uma música?

Não tenho propriamente um livro, um filme e uma música favoritos. Vou nomear 10 entre muitos possíveis.

Livros: Memorial do Convento, de Saramago; O Nome da Rosa, de Umberto Eco; Sexta- feira ou os Limbos do Pacífico, de Michel Tournier; The Red Badge of Courage, de Stephen Crane; Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar; Amor em Tempos de Cólera, Gabriel García Márquez; Alice do Outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll; O Processo, de Kafka; Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges.

Filmes: As Asas do Desejo, de Wim Wenders; Amarcord, de Fellini; Gato Preto, Gato Branco, de Emir Kusturica; Nostalgia, de Tarkovsky; Pátio das Cantigas, de Francisco Ribeiro; Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock; Blade Runner, de Ridley Scott; Todo Sobre Mi Madre, de Almodóvar; Pulp Fiction, de Quentin Tarantino; Shrek, da DreamWorks.

Músicas: Sonata nº14 – Beethoven; The Doo-Bop Song – Miles Davis; Take Five – Dave Brubeck; Cantaloop – Us3; Wave – Antonio Carlos Jobim; Estranha Forma de Vida – Amália; Enjoy The Silence – Depeche Mode; Space Oddity – David Bowie; Passionfruit – Drake; Colors – Black Pumas; Paradise – Sade; Valerie - Amy Winehouse.


E a comida e bebida favoritas?

Caldo verde, broa de Avintes e um bom vinho tinto.





Leia aqui a entrevista no website da Design et al.